Resenhas D&R.

*Resenha de texto discutido durante o segundo semestre de 2013, no Grupo de Estudos Subalternos, Periféricos e Emergentes (Gespe).

Elementos para a Construção de uma Cooperação Brasil-Índia: Inovação Tecnológica e Comércio Internacional. Rumo a uma estratégia de desenvolvimento para superar os efeitos assimétricos da Globalização (Marcos Costa Lima & Suranjit Kumar Saha).

 

Por Anderson Cardozo – D&R

 

Neste trabalho, os autores se debruçam para uma análise acerca do paradigma do desenvolvimento, fazendo um estudo comparativo das regiões da Ásia e da America Latina, onde logo se evidencia a distinção dos caminhos adotados. O foco temporal de investigação é o contexto de globalização econômica, momento do qual apresenta novas oportunidades de crescimento, ao mesmo tempo em que os desafios também ganham em amplitude, seja no seu nível de tempo como no de espaço. E neste sentido, há uma breve problematização do que vem a ser a globalização – econômica, onde dentre suas várias interpretações, os autores destacam que, “se trata de uma nova fase de internacionalização do capital, iniciada nos anos 80 e resultante de políticas de liberalização e desregulamentação seja do comercio mundial, das relações de trabalho e das finanças”, pautadas na hegemonia do capital financeiro.

No entanto, até chegar à investigação do paradigma desenvolvimentista da década de 1990, Marcos Costa Lima & Suranjit Kumar Saha traçam os percursos que a Ásia e a America Latina fizeram, sobretudo, ao longo dos anos 70 e 80. Fica claro que o modelo adotado pelos asiáticos se mostrou muito mais eficaz, especialmente quando se têm os exemplos da Coréia do Sul e do Japão, quando se leva em consideração a política que privilegiou o relacionamento entre empresa e o Estado. A consequência disso foi um intenso dinamismo econômico. Também merecem destaques países como China e Índia, que neste mesmo período – década de 1980 – apresentaram taxas de crescimento positivas. No caso da China, o crescimento foi de quase 10% ao ano nesta década. A Índia, mesmo com uma taxa de crescimento bem abaixo da chinesa, quando comparado à média mundial, o resultado foi muito favorável.

Neste mesmo período, a América Latina se viu diante de uma forte crise econômica, tida como a década perdida, com redução nos níveis de emprego, bem como no salário real médio dos trabalhadores.

No tocante à globalização, os autores chamam atenção para a mudança do paradigma de desenvolvimento, transitando para a inovação tecnológica. Quando observada a realidade de países periféricos, este paradigma se mostra de grande desafio, tendo em vista a fragilidade destes Estados. Fragilidade percebida a partir de condicionantes externos, dentre eles, a dívida externa e a dependência de tecnologias advindas de países desenvolvidos. 

China e Índia também são exemplos emblemáticos quando se trata de crescimento econômico no que tange ao paradigma atual. Apresentam-se como países paradigmáticos, mas que, não significa que seus modelos de desenvolvimentos são semelhantes. Como principal economia mundial em termos de crescimento econômico, a China tem no setor secundário, a principal mola propulsora. Quando relacionado à sua contribuição do PIB, o setor industrial passou de 41,6% em 1990 para 52,3% em 2003. Como destacado pelos autores, a China apresenta um modelo de tipo clássico de desenvolvimento puxado pelas manufaturas, com quatro fatores principais em seu projeto de industrialização: uma taxa de poupança nacional de 43% do PNB, o progresso intenso na construção de infra-estrutura, os Investimentos  Externos Diretos e uma vasta reserva de mão-de-obra de baixo custo. Por outro lado, a Índia vem alavancando sua economia, sobretudo, pela forte contribuição do setor terciário, em especial, com as ótimas capacidades internas do setor de tecnologia da informação e comunicação. Também é de chamar atenção o crescimento do setor de serviços na composição do PNB indiano, onde passou de 40.6% em 1990, para 50.8% em 2003.

            Mostrando-se preocupados com a possibilidade de maiores articulações enriquecedoras dentro do contexto das relações Sul-Sul, os autores apresentam o que vem sendo traçado pela Índia e o Brasil no que tange as suas políticas de ciência e tecnologia, em particular, a partir da década de 1990, evidenciando mais uma vez o distanciamento estratégico de cada um. Vale lembrar que a Índia atualmente, é uma das grandes potencias mundiais quando falamos da produção de software, situação que é fruto de um longo processo de desenvolvimento endógeno, ou seja, com a forte presença estatal no incentivo aos setores de ciência e tecnologia. Portanto, a autonomia que os indianos adquiriam neste seguimento, não é uma obra da internacionalização de sua economia. O cenário liberal apenas mostrou ao mundo as capacidades tecnológicas apropriadas pela Índia, principalmente, quando se tem uma preocupação setorial para o caráter exportador.

O momento favorável que atinge a economia indiana resulta em boas expectativas para sua população, bem como, dentro das relações internacionais, passa a ser vislumbrada como uma futura potencia internacional. No entanto, afora esse clima de euforia positiva, Costa Lima & Saha evidenciam que ainda há grandes debilidades estruturais na Índia, como às relacionadas à pobreza. Desde o processo de liberalização econômica, a Índia vem reduzindo o número de pessoas que viviam abaixo da linha de pobreza. Mas essa redução não se deu à custa do dinamismo do mercado. A atuação do Estado é de fundamental importância na minimização desse constrangimento, principalmente quando observado que há um desequilíbrio no crescimento. O setor terciário, motor de crescimento da economia nacional abarca um número reduzido da mão-de-obra do país[1], ao mesmo tempo em que, aproximadamente 60% dos trabalhadores ainda se encontram no setor primário.

Neste sentido, o atual paradigma de desenvolvimento do país deve está atento a esses desníveis sociais que assolam seu território. E as oportunidades que se abrem para a Índia, lhe dão subsídio para um enfrentamento efetivo dessa questão.

No caso brasileiro, o paradigma de desenvolvimento em torno do processo de inovação apresenta uma realidade distinta daquela observada na Índia, e o setor de software é um bom indicador deste distanciamento. No Brasil, a tônica está na fragmentação do setor, no qual, não há um direcionamento para o mercador exportador, sendo o mercado doméstico, o raio de atuação mais imediato e satisfatório.

            Com realidades muitas vezes distintas, mas com interesses que mais se convergem do que se afastam, os países da periferia, encontra neste cenário de globalização um terreno capaz de firmar parcerias cooperativas, e assim minimizar as grandes debilidades que enfrentam no ambiente doméstico. A Índia, que por sua vez, vem desenvolvendo políticas no campo de ciência e tecnologia importantes, e que vem potencializando o país a ser uma das referencias internacionais. Também se destaca como um dos grandes centros de formação de mão-de-obra qualificada no que tange a programadores e engenheiros. Da mesma forma, o Brasil apresenta grandes potencialidades no setor. Tendo em mente estas potencialidades nos dois países, Costa Lima & Saha nos mostra que a construção de uma cooperação voltada para a Inovação tecnológica e o comercio internacional é uma forte ferramenta para superar os efeitos assimétricos da globalização.


[1] Isso comparado ao número total de trabalhadores, e principalmente por se tratar de um país com a segunda maior população do mundo.

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