Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo?

*Por Aleksander Aguilar

 

O próximo domingo 2 de fevereiro é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.

De forma geral, veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.

Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos, em tese, com o social.  

Na década de 1990, as forças políticas ligadas à esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.

Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais há pouco estabelecidas.

Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE, do ex-presidente  Zelaya, rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influiu nos rumos do governo. Na Nicarágua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador, a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E, na Costa Rica, a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.

O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão ao estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.

Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de mudança propostas por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam.  O atual candidato da FMLN, Salvador Sánchez Cerén, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.

Na Costa Rica, as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.

O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.

 

 

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e coordenador do Grupo de Estudos América Central (GEAC), do Núcleo de Pesquisas Desenvolvimento e Região (D&R) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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